Eugene Fama ganhou o Nobel de Economia em 2013 por provar que os mercados são eficientes — que é impossível bater o mercado de forma consistente usando informação pública. Mas Fama e seu colega Kenneth French também descobriram que certas categorias de ativos historicamente entregam retornos maiores do que outras. Isso seria uma contradição? Não — e entender por que é um dos conceitos mais importantes em finanças modernas.

Série: Investimentos Passivos Baseados em Índice
Este é o artigo 5 de 5 da série. Leia também: A História de Bogle e a Vanguard · A Caminhada Aleatória · Por que 94% dos fundos perdem · A Tirania das Taxas

A aparente contradição que Fama resolveu

Se os mercados são eficientes — como Fama demonstrou — como podem existir grupos de ativos que consistentemente entregam retornos maiores? Não deveria qualquer "oportunidade" ser rapidamente arbitrada e eliminada pelo mercado?

A resposta de Fama é elegante: os retornos maiores existem precisamente porque o mercado é eficiente. Ativos que entregam retornos maiores carregam riscos maiores. O mercado compensa esses riscos com prêmios de retorno. Não é ineficiência — é o mercado funcionando corretamente.

Isso transforma a questão. Em vez de "como bater o mercado?", a pergunta passa a ser: "quais riscos específicos existem, quais são os prêmios associados a cada um, e quais desses riscos faz sentido assumir dado meu horizonte e tolerância?"

O modelo que existia antes: o CAPM e sua limitação

O Capital Asset Pricing Model (CAPM), desenvolvido nos anos 1960 (William Sharpe, Nobel 1990, entre outros), dizia que o único determinante do retorno esperado de um ativo era seu beta — sua sensibilidade ao mercado como um todo.

Mais beta significa mais risco de mercado e, portanto, mais retorno esperado. Simples e elegante. Um ativo que sobe 15% quando o mercado sobe 10% (beta = 1,5) deve oferecer retorno esperado maior do que um ativo que sobe apenas 8% quando o mercado sobe 10% (beta = 0,8).

O problema: os dados empíricos mostravam discrepâncias sistemáticas que o CAPM não conseguia explicar. Certas ações — especialmente empresas pequenas e empresas com baixo preço em relação ao valor patrimonial — consistentemente entregavam mais do que o CAPM previa, mesmo ajustando pelo beta. Algo estava faltando no modelo.

O modelo de três fatores Fama-French (1992)

Em 1992, Eugene Fama e Kenneth French publicaram um paper no Journal of Finance que seria um dos mais citados da história das finanças. O modelo com três fatores explicava muito melhor os retornos históricos do que o CAPM:

FatorSiglaO que capturaPrêmio histórico estimado (EUA)
Fator de mercadoβ (beta)Exposição ao mercado de ações vs. renda fixa~5–6% a.a. real
Tamanho (Size)SMB — Small Minus BigAções de empresas pequenas vs. grandes~2–3% a.a.
Valor (Value)HML — High Minus LowAções baratas vs. caras (P/VPA)~3–4% a.a.

Em conjunto, esses três fatores explicam aproximadamente 90% da diferença de retorno entre carteiras diversificadas — uma melhoria enorme em relação ao CAPM, que explicava muito menos.

O fator tamanho (SMB) captura o fato de que empresas menores historicamente entregam retornos maiores do que grandes empresas no longo prazo. O fator valor (HML) captura o fato de que empresas com baixo preço em relação ao valor patrimonial (value stocks) historicamente superam empresas com valuation elevado (growth stocks).

A explicação de Fama — por que não é contradição com a eficiência de mercado

A pergunta natural é: se esses prêmios existem, por que o mercado não os elimina por arbitragem?

A resposta de Fama é que os prêmios existem porque esses ativos carregam riscos específicos que o mercado compensa:

  • Empresas pequenas são menos líquidas (mais difícil vender rapidamente sem impactar o preço), mais vulneráveis a ciclos econômicos, mais propensas a falência. Quem as carrega assume risco real e é compensado com retornos esperados maiores.
  • Value stocks (com baixo preço em relação ao patrimônio) frequentemente estão em dificuldades financeiras, passando por reestruturações ou enfrentando ventos contrários no setor. Esse risco de distress financeiro também é compensado.

Os prêmios não são dinheiro grátis — são compensação por suportar riscos que outros investidores preferem evitar. O mercado é eficiente: a oportunidade não é eliminada porque ela não é livre de risco.

O modelo de cinco fatores Fama-French (2015)

Em 2015, Fama e French publicaram um modelo expandido no Journal of Financial Economics, adicionando dois fatores que melhoraram ainda mais a capacidade explicativa:

FatorSiglaO que capturaPrêmio histórico estimado
MercadoβRisco sistêmico de ações~5–6% a.a. real
TamanhoSMBSmall cap vs. large cap~2–3% a.a.
ValorHMLValue vs. growth~3–4% a.a.
LucratividadeRMW — Robust Minus WeakEmpresas lucrativas vs. não lucrativas~3% a.a.
InvestimentoCMA — Conservative Minus AggressiveEmpresas que investem pouco vs. muito~2–3% a.a.

O fator de lucratividade (RMW) captura o fato de que empresas mais lucrativas tendem a entregar retornos maiores. O fator de investimento (CMA) captura que empresas que investem de forma conservadora (crescem devagar) tendem a superar as que investem agressivamente — contra-intuitivo, mas empiricamente consistente.

Ben Felix, gestor e criador do podcast Rational Reminder (PWL Capital, Canadá), publicou o paper "Five Factor Investing with ETFs" mostrando como implementar esse modelo com ETFs acessíveis globalmente. O paper é uma das referências mais práticas disponíveis sobre o tema.

O investidor brasileiro deve fazer "factor tilts"?

Esta é a parte mais importante e mais honesta deste artigo — e a resposta direta é: para a maioria dos investidores brasileiros, não. Pelo menos não ainda.

A sequência correta é:

  1. Passo 1 — Saia dos fundos ativos caros. Se você ainda tem dinheiro em fundos com taxa de administração acima de 0,5% ao ano, o ganho mais impactante que você pode ter é migrar para ETFs de baixo custo. Leia A Tirania das Taxas para ver os números.
  2. Passo 2 — Construa uma carteira passiva simples. Uma combinação de BOVA11 (mercado brasileiro), IVVB11 (mercado americano) e renda fixa adequada ao seu perfil já coloca você à frente de 80% dos investidores do país.
  3. Passo 3 — Factor tilts (avançado). Para quem já tem o Passo 2 consolidado, exposição adicional a small cap e value via ETFs especializados pode fazer sentido — com ETFs globais disponíveis via conta no exterior (como os da Dimensional Fund Advisors) ou eventualmente via B3.

Por que não é para todos

Os factor tilts aumentam a complexidade da carteira e exigem convicção para manter durante períodos prolongados de underperformance. O fator value ficou dramaticamente abaixo do índice geral por mais de 10 anos nos EUA (2010–2020), enquanto growth stocks disparavam. Só quem manteve a posição por décadas capturou o prêmio histórico.

Os prêmios de fator têm evidência acadêmica robusta de longo prazo — mas não são garantidos em nenhum período específico de 10 ou 15 anos. E o ganho esperado, embora real em horizontes longos, é marginal comparado ao benefício de simplesmente sair de fundos ativos caros.

Resumo da série: os artigos desta série constroem um argumento completo para o investimento passivo — da história de Bogle, passando pela teoria da eficiência de mercado, pelos dados do SPIVA e pelo impacto das taxas, até o refinamento dos fatores de Fama-French. A conclusão é sempre a mesma: custos baixos, diversificação ampla e disciplina de longo prazo batem a maioria das estratégias ativas.
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Fontes e Referências