Todo banco e corretora quer te vender um fundo gerido por especialistas. Existe, porém, uma pesquisa de mais de 20 anos que responde de forma empírica se esses especialistas valem o preço: o SPIVA Scorecard. Os resultados são, no mínimo, perturbadores para quem defende a gestão ativa.
Este é o artigo 3 de 5 da série. Leia também: A História de Bogle e a Vanguard · A Caminhada Aleatória · A Tirania das Taxas · Fama-French: os Fatores
A pergunta que toda corretora evita responder
Quando você contrata um fundo de gestão ativa, está essencialmente apostando que aquele gestor específico vai conseguir retornos maiores do que o mercado como um todo, consistentemente ao longo do tempo, e que esses retornos extras vão superar o valor das taxas cobradas.
É uma aposta razoável? Os dados dizem que não. E isso não é achismo — é uma das áreas da finanças com mais evidência empírica acumulada nas últimas décadas.
O que é o SPIVA e por que ele importa
O SPIVA Scorecard (S&P Indices Versus Active) é publicado pela S&P Dow Jones Indices desde 2002. Ele compara o retorno de fundos ativos de cada categoria contra seus respectivos índices de referência, depois de custos — que é o número que realmente importa para o investidor.
A metodologia do SPIVA é considerada o padrão-ouro do debate ativo vs. passivo porque usa dados reais de fundos reais, não simulações. Ele também corrige o viés do sobrevivente: fundos que fecharam por mau desempenho são incluídos na análise retroativamente, evitando que a sobrevivência natural dos melhores fundos distorça o quadro geral.
Os números do SPIVA 2024 — sem rodeios
Os dados do SPIVA U.S. Year-End 2024 para fundos de ações de grande capitalização dos EUA versus o S&P 500:
| Horizonte | % de fundos abaixo do S&P 500 |
|---|---|
| 1 ano | 65% |
| 3 anos | 76% |
| 5 anos | 79% |
| 10 anos | 87% |
| 15 anos | 92% |
| 20 anos | 94,1% |
Em tradução direta: dos fundos que existiam 20 anos atrás e ainda estão ativos, 94,1% ficaram abaixo do S&P 500. E isso considerando apenas os sobreviventes — excluindo os que fecharam pelo caminho. O retrato completo é ainda mais sombrio.
Esses são dados americanos. Os dados brasileiros de longo prazo apontam na mesma direção, mas o histórico local ainda é mais curto. Segundo dados da ANBIMA, em janelas de 10 anos no Brasil, mais de 80% dos fundos de renda variável ficam abaixo do Ibovespa após custos.
A ilusão da persistência — o dado que mais importa
O argumento mais comum a favor de fundos ativos é este: "Mas existem gestores que batem o índice consistentemente. É só identificar os melhores e investir neles."
O SPIVA mede exatamente isso, no chamado Persistence Scorecard: dos fundos que estavam no quartil superior de desempenho em um período, quantos permanecem no quartil superior no período seguinte?
O resultado: menos do que seria esperado pelo acaso. O gestor que foi top quartil nos últimos 3 anos não tem probabilidade significativamente maior de ser top quartil nos próximos 3 anos do que um gestor escolhido aleatoriamente.
Isso é fundamental. Você não sabe de antemão em qual 6% de gestores vencedores estar. E pagar taxas mais altas para tentar descobrir reduz ainda mais suas chances — porque você está usando retornos de mercado para pagar essa busca.
Por que isso é matematicamente previsível
O resultado do SPIVA não é uma descoberta surpreendente para quem conhece a Aritmética da Gestão Ativa, formalizada por William Sharpe (Nobel de Economia, 1990) em paper de 1991.
O argumento é simples: todos os investidores, em conjunto, possuem o mercado inteiro. Se você soma as carteiras de todos os gestores ativos, você tem o mercado. O retorno médio de todos eles, antes dos custos, é igual ao retorno de mercado. Depois dos custos — taxas de administração, performance, corretagem, spread de bid-ask — a média dos investidores ativos perde para o índice por exatamente o valor dos custos.
Não é sobre competência dos gestores. É sobre a matemática da soma zero menos custos. Como Bogle argumentou durante décadas, isso não é opinião — é aritmética.
O cenário brasileiro: taxas ainda mais altas, mesmo resultado
No Brasil, a situação é agravada pelas taxas. A mediana de taxa de administração de fundos de ações no Brasil ultrapassa 1,5% ao ano, com muitos fundos cobrando adicionalmente uma taxa de performance de 20% sobre o que exceder o benchmark.
Em comparação, o BOVA11 (ETF Ibovespa) cobra 0,10% ao ano, e o IVVB11 (ETF S&P 500 em reais) cobra 0,23% ao ano. A diferença de custo entre um fundo ativo típico e um ETF equivalente pode chegar a 2 pontos percentuais ao ano.
Para entender o impacto exato dessa diferença em termos de patrimônio acumulado em 30 anos, leia o próximo artigo da série: A Tirania das Taxas — Como 1% ao Ano Pode Custar R$ 500 Mil na Sua Aposentadoria.
O que fazer com esses dados
A conclusão não é que nenhum gestor seja competente ou que fundos ativos nunca gerem alfa. A conclusão é que identificar antecipadamente os gestores que vão bater o mercado é estatisticamente impossível de forma confiável no longo prazo — e pagar para tentar tem custo certo, enquanto o benefício é incerto.
A estratégia racional é colocar a maior parte do portfólio em ETFs de baixo custo, que por definição capturam o retorno do mercado menos uma taxa mínima. Para quem já domina o básico, os fatores de Fama-French oferecem uma extensão refinada desse raciocínio.